Ordem de execução para quem tem projeto de IA em produção:
- Levantar o que responde na internet nas portas 4000 e 3000. São as duas que a varredura procura, e são os padrões de LiteLLM e Gotenberg.
- Conferir a versão do LiteLLM e fechar o caminho da CVE-2026-42271, ligada ao endpoint
/mcp-rest/test/connection. - Procurar conexão de saída para as portas 3778, 5001, 5002 e 9999, que é a sinalização dos infectados, e para a porta 81 dos servidores de comando, por onde vem o arquivo.
- Procurar processo de mineração e conexão para endpoints da Kryptex, entre eles 5.180.174.162:8029 e 46.21.245.211:7029.
- Tratar servidor infectado como reaproveitado: a operação transforma o host comprometido em varredor e em servidor de exploração contra terceiros. O problema deixa de ser consumo de CPU e passa a ser responsabilidade sobre o que sai da sua rede.
Três endereços de comando seguiam ativos na publicação: 92.119.164.50, 103.249.201.108 e 178.128.14.204.
Como o poema vira endereço
O repositório é uma bifurcação do código-fonte do nodejs.org, publicada por um usuário de nome ejejejdfbbebe. Dentro dele há um arquivo chamado dash.css que não contém folha de estilo nenhuma, e sim um poema intitulado On the Nature of Connection. O malware lê esse arquivo, extrai quatro palavras de posições fixas do texto e usa um dicionário embutido para converter cada palavra em um número. Os quatro números, em ordem, formam o endereço IPv4 do servidor de comando.
O exemplo que a Black Lotus Labs documenta é direto: as palavras driver, diode, decryption e string produzem 92.119.165.74. Para mudar de servidor, o operador não precisa atualizar o malware nem redistribuir carga. Basta editar o poema. Entre 13 de abril e setembro de 2026 o texto foi alterado 11 vezes, e só as palavras-chave mudaram. A lógica de decodificação permaneceu igual todo esse tempo.
É um canal de resolução de comando que se esconde bem por três razões. A primeira é que o tráfego é para o GitHub, que ninguém bloqueia e quase ninguém inspeciona. A segunda é que o arquivo tem extensão .css em um repositório que parece ser de um projeto conhecido, então inspeção superficial não acha nada. A terceira é que não existe domínio para derrubar nem endereço fixo para colocar em lista de bloqueio: a lista muda quando o autor edita um poema.
A graça técnica não deve esconder o tamanho do problema. Isso é uma camada de ocultação de resolução, não de execução. Quem detecta por comportamento, e não por indicador, continua vendo um servidor minerar criptomoeda e varrer a internet. A engenhosidade atrasa a atribuição e o bloqueio, não a detecção.
Como o servidor é comprometido
A varredura é de internet inteira, concentrada em duas portas: a 3000, padrão do Gotenberg, e a 4000, padrão do LiteLLM. Alvo vulnerável recebe uma requisição POST montada que faz o próprio servidor baixar um arquivo do servidor de comando na porta 81. A avaliação é de que o caminho de exploração no LiteLLM passa pelo endpoint /mcp-rest/test/connection, associado à CVE-2026-42271.
A partir daí o host infectado recebe shell remoto, instala os mineradores XMRig e Iron, e passa a varrer e explorar em nome da operação, sinalizando para o comando nas portas 3778, 5001, 5002 ou 9999. A própria investigação começou por outro caminho: os pesquisadores chegaram à infraestrutura analisando a CVE-2026-10520, no Ivanti Sentry, que também pode ter sido usada como alvo.
Nada disso exige falha nova ou cadeia sofisticada. Exige um serviço de inferência respondendo na internet sem autenticação, que é o estado padrão de boa parte dos projetos de IA que saíram de prova de conceito sem passar por revisão de segurança.
A infraestrutura, que é onde a história encosta na região
O comando e controle não roda em nuvem contratada. Roda em roteador vulnerável com servidor web Boa exposto, o tipo de equipamento doméstico ou de pequeno escritório que fica anos sem atualização de firmware porque o fabricante parou de publicar.
O primeiro servidor de comando da campanha, identificado em abril, foi 191.37.28.160, um roteador no Brasil. Em maio apareceu um roteador na China, 120.224.114.212. Os pesquisadores avaliam com confiança moderada que o servidor administrativo do operador é 185.119.19.171, na Itália, e atribuem a operação a alguém que fala italiano, com base em comentários no código e no perfil dos alvos dedicados.
Vale ler o papel do Brasil nessa história com precisão, porque ele se repete. A vítima brasileira aqui não é alvo de espionagem nem de extorsão. É infraestrutura gratuita. Um roteador residencial com interface web antiga exposta tem endereço com reputação limpa, fica ligado 24 horas e pertence a alguém que nunca vai olhar o registro de conexão. Para quem opera uma botnet, isso vale mais do que um servidor pago, e não deixa rastro de pagamento.
É o mesmo padrão que apareceu há poucos dias em outra campanha, com site de pequena empresa sul-americana sendo usado como etapa de entrega de malware. Duas histórias diferentes, mesmo insumo escasso: ativo da região com reputação boa e sem dono atento.
O tamanho, com a ressalva que a própria análise deixa
| Medida | Valor |
|---|---|
| Servidores vítimas, no corpo da análise | cerca de 2.200 |
| Servidores vítimas, no resumo executivo da mesma análise | mais de 3.400 |
| Pico de ativos por dia, em meados de junho | perto de 800 |
| Alterações no poema, de 13 de abril a setembro | 11 |
| Endereços de comando identificados | 12, três ativos na publicação |
| Concentração geográfica das vítimas | Estados Unidos e Europa Ocidental |
A divergência entre 2.200 e 3.400 está no próprio documento e não é reconciliada nele. Vale registrar em vez de escolher o número maior: a ordem de grandeza é de alguns milhares de servidores, e a precisão não muda nenhuma decisão operacional.
O que vem depois da mineração
A atividade recente inclui experimentos de força bruta distribuída contra SSH e contra portal de autenticação. A maturidade dessa parte é incerta, e boa parte dos alvos eram servidores dedicados na Itália, o que sugere teste em terreno conhecido do operador.
Essa é a parte que merece atenção de quem está decidindo prioridade. Mineração é o uso mais barato e menos lucrativo de um servidor comprometido. Quando um operador de botnet de mineração começa a testar força bruta de credencial, ele está procurando o uso seguinte do mesmo acesso. Servidor de inferência guarda chave de provedor de modelo, histórico de prompt e, cada vez mais, credencial de ferramenta interna conectada por protocolo de contexto. O valor disso é muito maior do que o do Monero que a CPU produz.
Caça e contenção
- Varrer o próprio espaço de endereço público nas portas 3000, 4000, 11434 e nas portas alternativas em que a equipe de dados costuma subir serviço. A resposta útil é a lista, não a estimativa.
- Alertar em conexão de saída para porta 81 e para as portas de sinalização 3778, 5001, 5002 e 9999 a partir de servidor de aplicação. Servidor de inferência que inicia conexão para porta ímpar é anomalia suficiente.
- Procurar, no registro de proxy e de DNS, requisição de servidor de produção para o GitHub buscando arquivo isolado. Clonagem de repositório é normal; leitura periódica de um arquivo só, por processo que não é o pipeline, não é.
- Medir uso de CPU por processo e não só em média. Minerador moderno se regula para não chamar atenção.
- Em host confirmado, rotacionar chave de provedor de modelo, token de repositório e qualquer segredo acessível pelo processo, antes de reinstalar. Reinstalar primeiro e rotacionar depois é a ordem que deixa o atacante com a chave.
- Colocar Gotenberg, Gitea e qualquer utilitário de conversão atrás de firewall. São serviços internos que não têm razão para responder na internet, e estão na lista de alvos por isso.
A lição que não é sobre poema
Vale separar o que é curiosidade do que é problema. O poema é curiosidade, e é a parte que vai circular. O problema é que a infraestrutura de IA entrou em produção com o padrão operacional de software interno e a exposição de software de borda. Ferramenta de inferência sobe rápido, é documentada com exemplo que escuta em todas as interfaces, não tem autenticação ligada por padrão e é instalada por quem responde por entrega de produto, não por risco.
Na mesma semana, quatro alvos de infraestrutura de IA cederam em um concurso de segurança e um deles, o LiteLLM, aparece como alvo principal desta botnet. Não é coincidência de agenda. É a mesma camada sendo medida por dois métodos diferentes e dando o mesmo resultado.
Outras correções e falhas do dia
- NVIDIA
Travamento sem autenticação no exportador de métrica de GPU exposto
A CVE-2026-47483 está no DCGM Exporter, o componente que publica métrica de GPU para o Prometheus, e permite derrubar o serviço sem autenticação. Atinge quem deixou a porta de métrica acessível, situação comum em cluster de treinamento e de inferência montado por equipe de dados. É negação de serviço, não execução de código, e ainda assim apaga a observabilidade de quem mais depende dela para notar consumo anômalo de GPU.
- X.Org
Doze falhas no servidor gráfico, nove com execução de código
O projeto X.Org publicou correção para 12 vulnerabilidades, nove delas com potencial de execução de código. Para parque Linux de desktop e para estação de engenharia, é atualização de prioridade alta. Vale também para servidor com ambiente gráfico instalado por hábito e nunca removido, que costuma passar em branco no inventário de superfície.
- Phishing
Milk Dragon, o kit que usa desconto falso em rede social, com vítimas em 66 países
Pesquisadores descreveram nesta semana o kit de phishing batizado de Milk Dragon, que distribui oferta e desconto falsos por rede social e já registra vítimas em 66 países. Kit com alcance global e isca de consumo costuma chegar à América Latina por tradução automática e adaptação de marca local, o que torna detecção por domínio pouco eficaz e detecção por padrão de página bem mais útil.
- YouTube
Patrocínio falso e verificação de canal para chegar à conta Google
Campanha em curso contra criadores de conteúdo usa proposta falsa de patrocínio e página falsa de verificação de canal para capturar credencial de conta Google. O alvo real não é o canal, é a conta, que em muitos casos também é a conta de trabalho de um pequeno negócio, com acesso a Drive, e-mail e gerenciador de anúncios.
Fontes e aprofundamento
- Lumen Black Lotus Labs · Canto incognito: tracking the PoeLLM malware, a análise de 7 de outubro, com o esquema de decodificação do poema, as portas de varredura e de sinalização, os roteadores usados como comando, a atribuição e os indicadores.
- GBHackers · PoeLLM Malware Hijacks 3,400+ Servers for Crypto Mining and Botnet Expansion, o alcance da campanha, os alvos LiteLLM, Ollama, Gotenberg e Gitea e o reaproveitamento do host infectado como varredor.
- OrcaRouter · PoeLLM: a botnet que escondeu seu C2 em um poema no GitHub, leitura em português do mecanismo do poema e do caminho de comprometimento dos serviços expostos.
- RuntimeWire · PoeLLM turns exposed AI and developer servers into miners and attack launchpads, o uso dos servidores comprometidos como plataforma de varredura e exploração contra terceiros.