Mercado · 26 de agosto de 2026
US$ 140 milhões para atacar o modelo antes que o cliente descubra a falha
A Alice, que até este ano se chamava ActiveFence, levantou US$ 140 milhões liderados pelo Apax Digital. A parte de IA cresceu mais de 500% em dois anos e a receita recorrente se aproxima de US$ 100 milhões. SentinelOne e Samsung entraram na rodada.
O que aconteceu: a Alice anunciou em 25 de agosto uma rodada de US$ 140 milhões liderada pelos Apax Digital Funds, que assume assento no conselho. Participaram Samsung, SentinelOne, Maj Invest, MoreTech e Phoenix Insurance, além dos investidores existentes Resolute Ventures, Grove Ventures, CRV, Highland Europe, Vintage, Norwest, NFX e Claltech. O total captado chega a US$ 280 milhões. O jornal Calcalist apurou avaliação entre US$ 700 milhões e US$ 800 milhões; a empresa não confirmou o número.
A história da empresa explica o produto melhor que o material de venda. A ActiveFence nasceu em 2018 vendendo confiança e segurança para plataformas de consumo. Durante quase uma década, seus analistas rastrearam quadrilhas de fraude, redes extremistas e manipulação coordenada nessas plataformas. Tudo o que registraram foi para um banco de dados interno chamado Rabbit Hole.
Esse acervo virou o insumo do negócio atual. Os ataques catalogados ao longo de dez anos são hoje os casos de teste que a empresa dispara contra modelos de linguagem. É uma transição de mercado bem executada: o mesmo dado, vendido para um comprador com orçamento maior.
Onde o produto encosta no ciclo de vida do modelo
O trabalho se divide em duas frentes. Antes do lançamento, pesquisadores rodam prompts maliciosos e tarefas agênticas contra modelos em laboratórios como Anthropic, Google e Cohere, procurando caminhos de jailbreak e de injeção de prompt. Depois que o modelo está em produção, clientes corporativos usam a plataforma para definir as próprias políticas do que o sistema pode fazer, simular ataques contra essas regras e monitorar entrada e saída em tempo real.
O argumento de risco tem lastro documental. O International AI Safety Report 2026, escrito com orientação de mais de cem especialistas independentes, concluiu que ataques desenhados para extrair respostas nocivas ficaram mais difíceis de executar, mas continuam viáveis quando o usuário reformula o pedido ou o divide em passos menores. A METR mantém um catálogo público de incidentes em que agentes agiram fora do escopo recebido, e em alguns deles o agente tentou esconder o que tinha feito.
Números da rodada
| Indicador | Valor |
|---|---|
| Rodada anunciada | US$ 140 milhões, liderada por Apax Digital Funds |
| Total captado | US$ 280 milhões |
| Avaliação apurada | Entre US$ 700 milhões e US$ 800 milhões, não confirmada pela empresa |
| Receita recorrente anual | Aproximando-se de US$ 100 milhões |
| Crescimento da linha de IA | Mais de 500% em dois anos |
| Investidores estratégicos novos | Samsung Electronics e SentinelOne |
| Ano de fundação | 2018, como ActiveFence |
Leitura LATAMSEC
Duas coisas nesta rodada merecem atenção de quem decide orçamento no Brasil, e nenhuma delas é o valor captado.
A primeira é a entrada da SentinelOne como investidora. Quando um fornecedor de detecção e resposta coloca dinheiro em uma empresa de teste adversarial de modelos, ele está sinalizando onde acredita que o controle vai morar. Não no endpoint, não na rede, mas na camada de comportamento do modelo. É o mesmo movimento que a indústria fez quando comprou identidade, e vale lembrar que essa consolidação chegou antes de o comprador corporativo ter clareza sobre o que estava comprando.
A segunda é a frase do fundador Noam Schwartz, que resume a tese melhor que qualquer projeção: a indústria está "democratizando capacidades antes de democratizar as defesas". Isso descreve com precisão o que acontece em banco, varejo e seguradora da região neste momento. O piloto de agente vira produção em semanas. O controle correspondente entra na pauta do comitê no trimestre seguinte, quando entra.
O ponto de atenção é de governança, não de tecnologia. Contratar guardrails de terceiro resolve a lacuna imediata e cria uma dependência nova: o fornecedor passa a definir, na prática, o que é comportamento aceitável do modelo dentro da sua operação. Isso é uma decisão de risco, e precisa estar escrita em algum lugar que o conselho consiga ler.
Uma pergunta que vale levar para a próxima revisão de fornecedores. Se a política de uso do modelo está codificada na plataforma de um terceiro, quem responde pelo resultado quando o modelo faz algo fora dela: o fornecedor de guardrails, o laboratório que treinou o modelo, ou a empresa que colocou o agente em contato com o cliente? A resposta contratual costuma ser diferente da resposta regulatória, e no Brasil a LGPD tende a apontar para o último.
Outros sinais do dia
AMD, Intel, Microsoft, OPAQUE e TII entregaram à Linux Foundation o padrão aberto de atestação de execução de IA.
A SentinelOne entra no capital de uma empresa de teste adversarial. Aposta de plataforma, não de portfólio.
Perto de US$ 100 milhões de receita recorrente com avaliação apurada entre US$ 700 e US$ 800 milhões. O mercado ainda paga por crescimento.
O banco de conteúdo adversarial acumulado desde 2018 é a barreira de entrada que o investidor está financiando.
Fontes e aprofundamento
- SiliconANGLE · Alice raises $140M as its AI security business grows more than 500%, por Duncan Riley (25/08/2026).
- Tech Startups · Alice raises $140M to secure AI models as revenue nears $100M ARR (25/08/2026).
- The Jerusalem Post · Israeli AI security company Alice raises $140m. in latest financing round (contexto sobre avaliação e investidores).
- METR · Catálogo público de incidentes com agentes de IA (base de referência sobre comportamento fora de escopo).