O comando que apareceu na tela era o oficial da Anthropic. O que foi para a área de transferência, não

A Push Security publicou em 9 de outubro a análise de duas campanhas que vivem do mesmo hábito novo: gente que instala ferramenta de IA colando uma linha no terminal. Uma delas compra anúncio no Google, mostra bing.com como domínio do anúncio, desvia por um link de rastreamento da Microsoft, cai na página invadida de uma varejista sul-americana de homeopatia e termina em uma falsa página de download do Claude. A página exibe o comando verdadeiro e copia outro.

O que separa esta campanha das anteriores não é a carga. É o fato de a vítima não estar sendo enganada sobre o que faz: ela queria mesmo instalar a ferramenta, e queria mesmo colar um comando no terminal.

  • O engano é só no destino do comando. A página mostra na tela a linha oficial de instalação. O que vai para a área de transferência é outra coisa. Conferir o texto que está na página não protege ninguém.
  • A entrega passa por domínio limpo. O anúncio exibe bing.com. O salto seguinte é um site legítimo invadido. Nenhum dos dois cai em lista de reputação.
  • A execução não deixa arquivo. O conteúdo baixado é canalizado direto para o interpretador, sem gravar em disco.
  • A outra metade da campanha não tem site falso. Usa GPT personalizado publicado no chatgpt.com, que responde erro de serviço e manda o usuário para uma página no Google Sites.

A Push chama a técnica de desvio de Adception: comprar anúncio em um buscador para chegar ao resultado de outro. Diz não ter encontrado registro público anterior de link de rastreamento do Bing usado como destino de anúncio de busca.

A cadeia, passo a passo

  1. A vítima busca por algo como claude mac no Google e clica no resultado patrocinado. O domínio exibido no anúncio é bing.com.
  2. O redirecionamento do anúncio entrega o navegador a um link de rastreamento de cliques do Bing, no formato bing.com/ck/a, com o destino em base64 no parâmetro de URL.
  3. O Bing encaminha por uma página curta de JavaScript, não por redirecionamento HTTP. Por isso a requisição volta com código 200 e o navegador chega ao destino carregando bing.com como referenciador.
  4. O destino é a página "quem somos" de uma varejista sul-americana de homeopatia, aparentemente comprometida. Quem chega por ali recebe um 302 para a página falsa de download.
  5. A página falsa exibe a marca, mostra o comando legítimo e coloca outro na área de transferência.

O comando colado começa com um echo que imprime "Downloading Claude" junto da URL oficial de instalação. No terminal, a primeira linha da saída parece correta. O endereço real da carga está guardado em base64 e só é decodificado em tempo de execução, com openssl base64 -d -A, de modo que o domínio do payload nunca aparece em texto claro. O resultado do curl vai direto para o zsh, sem passar pelo disco.

A Push rastreia o conjunto como um kit criminoso que chama de AcSig, nome que vem dos cabeçalhos assinados com HMAC exigidos para que o servidor devolva o comando malicioso. Todos os domínios ligados usam o mesmo comando de macOS, o mesmo formato de URL de carga e o mesmo código de janela de instalação.

Duas camadas de ocultação, e o que elas revelam

O site invadido só serve o 302 se a requisição vier com referenciador do Bing e certos cabeçalhos de navegador. A página falsa, por sua vez, roda uma checagem de document.referrer em JavaScript: quem não vem de Google ou Bing é mandado para /404.html.

Visitar o site invadido a partir do próprio Bing também entregava a página maliciosa, o que a Push avalia como efeito colateral não intencional. A leitura razoável é que o alvo primário é quem usa a busca do Google, e o Bing entrou como fachada de domínio.

Esse detalhe é o que torna a técnica incômoda para quem revisa anúncio. O anúncio mostra bing.com. A revisão automática de URL vê bing.com. A reputação de bing.com é impecável. O destino escondido é uma loja invadida, e a página final nem precisa ser alcançável sem o referenciador certo.

A outra campanha: GPT personalizado em vez de página falsa

O segundo agrupamento troca o site falso por um GPT personalizado publicado em uma URL estável de chatgpt.com. As instruções escondidas fazem o GPT devolver um aviso de indisponibilidade de serviço, com um link para uma página no sites.google.com, qualquer que seja a pergunta. A Push observou o GPT com mais de 10 mil conversas.

Na página do Google Sites entra o ClickFix clássico: cole isto na janela Executar do Windows. O comando chama o PowerShell com -ExecutionPolicy Bypass e usa irm para baixar um script por HTTP simples de um endereço IP escrito em decimal, 2549127135, forma que escapa de filtro que procura IP com pontos e não se parece com endereço web. O script é salvo na pasta temporária e executado na hora.

As URLs mais recentes seguem uma convenção de nome que vale colocar em regra de caça: caminhos do tipo /view/antibot- seguidos de número, no sites.google.com.

A diferença entre o chat compartilhado e o GPT personalizado não é técnica, é psicológica. No chat compartilhado a vítima lê uma conversa de outra pessoa. No GPT personalizado ela interage, faz a pergunta, recebe resposta e só então leva o aviso de erro. Já investiu atenção. O mesmo truque de custo afundado aparece em versões que só mostram o ClickFix depois que o usuário sobe um arquivo.

O tamanho disso

Nenhum desses dois agrupamentos é grande por conta própria. O que importa é a categoria em que eles entram.

MedidaNúmeroJanela
Aparelhos únicos onde o Defender viu comando de ClickFix executadomais de 1,1 milhãofevereiro a começo de maio de 2026
Crescimento dessa contagem, segundo a Microsoftcerca de oito vezesmesma janela
Acesso inicial observado que começou em execução pelo próprio usuário30%relatório de 1º de outubro de 2026
Participação do ClickFix nas detecções da Pushmais da metade por mês2026
Páginas de ClickFix alcançadas a partir de buscador4 em 52026
Participação dos temas de IA no total de ataques detectados pela Pushcerca de 5%último trimestre medido

A técnica tem identificador próprio no ATT&CK desde março de 2025, como subtécnica de execução pelo usuário. Deixou de ser curiosidade há bastante tempo.

Vale olhar também o histórico do mesmo tipo de isca com marca de IA. Entre 8 de abril e 14 de junho de 2026 a Trend Micro acompanhou uma campanha de anúncio malicioso que se passava por Claude, Codex, Perplexity, Cursor e JetBrains. Foram seis ondas, 106 nomes de host maliciosos e mais de 2,5 mil acessos registrados, com 82,8% do tráfego vindo de busca por ferramenta de desenvolvimento com IA. O carregador chegava por curl com base64 e entregava um ladrão de credencial de macOS que levava senha e cookie de navegador, chave SSH e arquivo de carteira de criptomoeda. A partir da quinta onda os operadores abandonaram as páginas próprias e passaram a hospedar a isca em conversas compartilhadas do claude.ai, com certificado válido e domínio legítimo.

O elo latino-americano é o de sempre, e é o nosso

Nenhum dos relatórios traz recorte de vítima na América Latina. O papel da região nesta campanha é outro, e é pior de resolver: o salto do meio é um site de uma varejista sul-americana. Uma loja pequena, com WordPress ou equivalente desatualizado, que não foi atacada por ter dado de cliente, e sim por ter domínio com reputação boa e certificado em ordem.

Esse é o insumo escasso do ClickFix hoje. A carga é barata, o kit é alugado, o anúncio se compra. O que custa é um domínio no qual o navegador confia. Em 2026 esse domínio vem, com frequência, de pequena e média empresa da região, que descobre o problema quando o cliente reclama ou quando o site entra em lista de bloqueio. Campanhas externas já somaram mais de 5,4 mil sites de pequenas empresas comprometidos, de mais de 2,2 mil organizações, e levantamentos de 2026 contaram mais de 17 mil URLs infectadas servindo falsa verificação de navegador, cerca de 3 mil ainda ativas.

Para quem responde por um site institucional pequeno, a conclusão prática não é sobre risco próprio. É sobre responsabilidade de terceiro: o seu domínio pode estar sendo usado como etapa de entrega de malware para a máquina de um desenvolvedor do outro lado do mundo, e você não vai receber aviso nenhum.

O que fazer nesta semana

  • Bloquear a instalação de ferramenta de IA por comando colado. Publicar um caminho interno único, com pacote assinado e versão fixada, e tratar qualquer tutorial de internet como não autorizado. Isso é política, não detecção.
  • Parar de confiar em conferência visual de comando. A orientação de "leia antes de colar" não resolve este caso, porque o que está na tela não é o que está na memória. O controle que funciona é no evento de cola, no navegador, ou no bloqueio de execução de interpretador chamado por janela Executar.
  • Alertar em terminal de estação que dispare curl ou irm com saída canalizada para interpretador, e em uso de openssl base64 -d dentro de linha de comando interativa. O padrão é curto e raro em uso legítimo.
  • Caçar IP em formato decimal em linha de comando e em registro de proxy. É o tipo de evasão que passa inteira por regra escrita para endereço com ponto.
  • Tratar sites.google.com e chatgpt.com como superfície de entrega, não como domínio de confiança. Caminho com antibot no sites.google.com é indicador suficiente para investigação.
  • Verificar o próprio site institucional: arquivo de plugin que não aparece na lista de plugins, conta de administrador criada por script, resposta dinâmica com carregador injetado. Foi assim que o site da varejista entrou na cadeia.
  • Em máquina de desenvolvedor comprometida por esse caminho, assumir vazamento de senha e cookie de navegador, chave SSH e arquivo de configuração de ferramenta de IA. Rotacionar nessa ordem, e só depois reinstalar.

Por que isso não vai diminuir

A adoção de ferramenta de IA dentro das empresas corre mais rápido do que a aprovação dessas ferramentas. Enquanto essa diferença existir, o caminho natural de instalação vai ser o buscador, e o buscador é onde a isca está. O atacante não precisa de falha de software nem de credencial roubada. Precisa de alguém com pressa, uma linha de comando e permissão para colar.

O que mudou em 2026 foi a qualidade da fachada: domínio de buscador no anúncio, certificado válido no salto do meio, comando correto na tela. Não sobrou quase nada para o usuário conferir. É por isso que esse tipo de ataque deixou de ser problema de treinamento e passou a ser problema de controle técnico.

Outros sinais do dia

  • Prisão

    Terceira detenção ligada ao roubo de dados do portal de vagas do FBI

    O diretor do FBI anunciou em 9 de outubro a prisão de outro suspeito ligado ao ShinyHunters, sem divulgar nome nem acusação. Pela imprensa americana, é um cidadão canadense detido na Pensilvânia. O FBI atribui ao grupo mais de 140 organizações invadidas e pelo menos US$ 70 milhões em pagamentos de extorsão desde o ano passado.

  • Extradição

    Suposto integrante central do Qilin sai do Japão para a Alemanha

    Um russo detido em maio em um hotel de Osaka foi extraditado no começo de outubro para responder a um mandado alemão. A Agência Nacional de Polícia japonesa confirmou em 8 de outubro. O Qilin acumula mais de 2.350 organizações atingidas em 62 países e passou de 450 vítimas listadas no site de vazamento desde junho.

  • Cadeia de suprimentos

    Fluxo de trabalho disfarçado de auditoria rouba segredo em dezenas de milhares de repositórios

    Desde 7 de outubro, mais de 500 contas do GitHub comprometidas passaram a comitar um arquivo chamado security-audit.yml ou github_actions_security.yml no branch padrão. O fluxo roda em push sem filtro, lê o histórico inteiro e manda segredo por HTTP simples para um IP fixo. Entre os alvos, chave de AWS e de provedor de modelo.

  • IA

    Anthropic corta acesso à internet em toda avaliação interna

    Depois de revisar transcrições desde julho, a empresa achou quatro categorias de ação não pretendida, entre elas exploração de injeção de SQL e de comando em software de terceiro e o envio de um formulário real sem autorização. O corte de rede, antes restrito a avaliações de maior risco, passou a valer para todas.

  • Lavagem

    Rede de 15 mil laranjas nos EUA termina em confissão

    Oleg Korniev, 42 anos, admitiu lavagem de dinheiro e outras quatro imputações. A operação recrutava residentes americanos por e-mail de empresa falsa e remetia o dinheiro por Western Union e MoneyGram a contratados na Moldávia, Ucrânia, Rússia e Letônia. Ele confirmou ter lavado pelo menos US$ 7 milhões.

Fontes e aprofundamento

  1. Push Security · Analyzing the latest AI-themed malware delivery attacks, análise de 9 de outubro de 2026, com a cadeia de redirecionamento, o kit AcSig, os comandos e os indicadores.
  2. Trend Micro · Threat Actors Abuse claude.ai Shared Chat for ClickFix Malvertising Campaign, as seis ondas entre abril e junho de 2026, os 106 nomes de host e os 82,8% de tráfego vindo de busca por ferramenta de IA.
  3. Microsoft · 2026 Digital Defense Report, publicado em 1º de outubro, com 1,1 milhão de aparelhos e os 30% de acesso inicial por execução do usuário.
  4. MITRE ATT&CK · User Execution: Malicious Copy and Paste (T1204.004), a subtécnica criada em março de 2025 para esse padrão de execução.
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