Destaque · 12 de setembro de 2026
Não houve invasão. A credencial estava no site, servida a quem pedisse
A FulcrumSec chegou a 28 vítimas nomeadas em cerca de um ano de operação sem explorar nenhuma vulnerabilidade de produto. O grupo chama a campanha de Hardcoded Horrorshow, e o nome descreve o método com precisão incomum.
O que aconteceu: a FulcrumSec opera desde setembro de 2025 com um modelo que o próprio grupo resume como roubar e apertar. Não cifra arquivo, não derruba serviço e não usa exploit. Procura credencial exposta em JavaScript servido ao navegador, em repositório acessível, em bundle de aplicação e em ambiente de desenvolvimento. Com a chave em mãos, entra autenticado, copia o que encontra e cobra pelo silêncio. O site de vazamento do grupo já nomeia 28 organizações. No caso mais conhecido, a Novo Nordisk recusou um pedido de US$ 25 milhões e teve mais de um terabyte publicado.
Há uma pergunta que aparece em toda reunião pós-incidente: por onde ele entrou? Nestes casos a resposta é constrangedora. Ele entrou pela porta da frente, com a chave que estava pendurada do lado de fora.
O caso da Novo Nordisk merece detalhe porque expõe a mecânica inteira. O ponto inicial foi um token de acesso do GitHub encontrado em março. Com ele, o grupo clonou repositórios internos e extraiu novas credenciais de dentro do código. Em paralelo, encontrou segredos em JavaScript servido ao navegador em dois subdomínios que não tinham relação entre si. Palavras do próprio grupo: duas equipes diferentes, duas aplicações diferentes, o mesmo erro elementar cometido duas vezes.
O grupo afirma ter passado mais de dois meses dentro do ambiente. O que saiu de lá inclui código-fonte, informação sobre medicamentos lançados e não lançados, dados de ensaio clínico, registros de funcionários e pacientes e material sobre modelos internos de IA. A empresa recusou pagar. O conteúdo foi publicado.
O padrão se repete em setores que não têm nada em comum
No Manchester Airports Group, o achado foi uma chave de API da Iterable exposta em JavaScript visível a qualquer visitante do site. Saíram 86 gigabytes. A lista de vítimas segue por consultoria de engenharia, rede internacional de escolas, fintech australiana e provedor de dados jurídicos.
Aeroporto, farmacêutica, escola e escritório de engenharia não compartilham fornecedor, regulação, arquitetura nem maturidade de segurança. Compartilham uma prática de desenvolvimento, e é só disso que o grupo precisa.
Por que a pilha de segurança não vê nada
Convido a leitura desta parte com a sua própria arquitetura em mente, porque o incômodo é o ponto.
- Não há o que o EDR detecte. A sessão usa credencial válida, dentro do fluxo previsto pela aplicação. Não existe binário estranho, processo anômalo nem escalada de privilégio para gerar alerta.
- Não há patch. Correção pressupõe defeito em software de terceiro. Segredo publicado não tem correção de fornecedor, tem rotação e limpeza de histórico.
- Não há perímetro a defender. O atacante lê exatamente o mesmo arquivo que o navegador de qualquer visitante baixa. Bloquear isso significaria bloquear a própria aplicação.
- Não há janela de urgência. Uma chave esquecida em 2022 continua válida em 2026 se ninguém a rotacionou. O tempo joga contra o defensor, e só contra ele.
Essa combinação explica por que o grupo consegue passar meses dentro de organizações grandes e bem financiadas. Não é sofisticação técnica. É exploração de um ponto cego que a maioria dos programas de segurança herdou por construção: o código é território do time de desenvolvimento, e o time de segurança olha para a infraestrutura.
O que costuma dar errado na resposta
Quem descobre um segredo exposto normalmente faz duas coisas: remove a linha do código e publica uma nova versão. Nenhuma das duas resolve.
Remover a linha não apaga o commit anterior. O histórico do repositório continua guardando a chave, e ela permanece válida até que alguém a rotacione no sistema que a emitiu. Publicar nova versão também não ajuda: o bundle antigo já foi baixado, indexado e arquivado por quem se interessou. A única ação que encerra a exposição é invalidar a credencial na origem.
A segunda falha típica é tratar o achado como incidente isolado. Se um segredo vazou por essa via, o processo que permitiu isso continua rodando. A pergunta certa não é qual chave vazou, e sim quantas outras estão pelo mesmo caminho neste momento.
Leitura LATAMSEC
Este é um daqueles riscos em que o trabalho inicial é barato e o adiamento é caro. Quatro movimentos, em ordem.
Um: varrer o que você já publica. Baixe os bundles de JavaScript dos seus domínios públicos e procure por chave de API, endpoint interno, string de conexão e token. É a mesma coisa que o atacante faz e leva uma tarde. Comece pelos subdomínios que nenhuma equipe reivindica, que são onde o achado costuma estar.
Dois: varredura de segredo no histórico, não só no código atual. Ferramenta que olha apenas o estado presente do repositório perde exatamente o caso da Novo Nordisk. O commit de março importa.
Três: prazo de validade em credencial de máquina. Token que nunca expira é token que sobrevive ao funcionário que o criou, ao projeto que o usava e à empresa que foi adquirida. Rotação automática reduz o valor do achado a poucas semanas.
Quatro: incluir o fornecedor na conta. Metade das chaves expostas nesses casos é de serviço de terceiro, do tipo que a área de marketing contrata sem passar por revisão. Uma chave de plataforma de e-mail marketing dá acesso à base inteira de contatos, e isso raramente aparece no mapa de risco.
Para o conselho, a pergunta é direta: quantos segredos válidos existem hoje em código que nós mesmos publicamos, e quem tem a autoridade para revogá-los sem derrubar a operação? Se não houver resposta, a resposta prática é que a organização depende da sorte de ninguém ter procurado ainda.
Contexto adicional
O grupo não interrompe operação. Vende o silêncio, o que reduz a chance de detecção e aumenta o tempo de permanência no ambiente.
Somados os casos públicos, o volume exfiltrado passa de vários terabytes, com picos de mais de 1 TB em uma única vítima.
Saúde, aviação, educação, engenharia e serviços financeiros aparecem na mesma lista. O critério é a exposição, não o setor.
Dado pessoal exposto por credencial publicada pela própria organização tende a configurar falha de medida de segurança, com dever de comunicação à ANPD.
Fontes e aprofundamento
- MOXFIVE · Who is FulcrumSec: inside the cloud extortion group, com o perfil do grupo e o levantamento de vítimas.
- Sysdig · The FulcrumSec playbook: how to detect and stop the group, com as técnicas observadas e opções de detecção.
- BankInfoSecurity · Novo Nordisk breach tied to stolen GitHub access tokens, com a cronologia do acesso inicial.
- Ransomware.live · Perfil público da FulcrumSec, referência da contagem de vítimas nomeadas (consulta em 11/09/2026).