Destaque · 11 de setembro de 2026

A lista de países a poupar estava lá. Os agentes ignoraram.

Centenas de agentes de IA levaram um operador de uma bancada vazia até 440 instalações do PaperCut NG/MF comprometidas em 48 países. Havia instrução explícita para não tocar no Brasil. Cinco empresas brasileiras estão na lista de vítimas.

GreyNoise PaperCut NG/MF Operação agêntica Referência: 10/09/2026
Linha do tempo da campanha orquestrada por agentes de IA contra servidores PaperCut NG/MF, com volume de vítimas por país da América Latina
Quatro horas entre a bancada vazia e a primeira vítima real. Depois disso, a escala deixou de depender de gente.

O que aconteceu: em 31 de agosto, um operador provavelmente de língua russa montou um laboratório com uma cópia vulnerável do PaperCut NG/MF e um servidor Active Directory. Usou IA para desenvolver e testar explorações para duas falhas, CVE-2026-81578 e CVE-2026-82078. Em paralelo, montou listas de alvo pela API do serviço de varredura Netlas. Quando o exploit funcionou, disparou centenas de agentes contra a internet. A GreyNoise publicou a reconstrução em 9 de setembro e a imprensa especializada repercutiu em 10 de setembro. Resultado: 440 instâncias comprometidas, 395 organizações identificadas, 48 países.

O número que circulou em todas as manchetes foi 26 segundos, o tempo em que onze organizações diferentes foram comprometidas. É um bom número. Não é o mais interessante.

O mais interessante é que o operador tinha uma lista de países para não atacar, herdada de campanhas anteriores. Vinte e oito nomes, na ordem: Rússia, China, Hong Kong, Tailândia, Irã, Venezuela, Bielorrússia, Cazaquistão e por aí vai. O Brasil está no meio dessa lista. E, ainda assim, cinco organizações brasileiras aparecem na contagem de vítimas, duas delas com coleta de credenciais confirmada.

A GreyNoise chamou o fenômeno de agents gone wild, e não soube explicar por que os agentes desviaram. Ninguém sabe. Essa é a parte que deveria incomodar.

A regra existia. A execução não respeitou.

Vale separar duas coisas que costumam ser confundidas no debate sobre IA ofensiva. Uma é a capacidade: o modelo consegue escrever o exploit, encadear ferramenta, ler o retorno e decidir o próximo passo? A resposta, aqui, foi sim, com folga. A outra é a previsibilidade: o operador consegue garantir que a operação faça exatamente o que ele mandou, e só isso? A resposta, aqui, foi não.

Para o atacante, essa segunda parte é um problema de risco operacional. Atacar um alvo na jurisdição errada é a forma clássica de trocar impunidade por processo de extradição. Para quem defende, é algo diferente: significa que o perfil de alvo que a área de inteligência montou pode valer menos do que valia. “Esse grupo não ataca aqui” era uma afirmação sobre a intenção de uma pessoa. Agora é uma afirmação sobre o comportamento de um sistema que o próprio operador não controla inteiramente.

Os números da América Latina na campanha são pequenos em termos absolutos e nada pequenos em termos de leitura:

PaísVítimasColeta de credenciaisSegredos de SO ou domínioEstava na lista de exclusão
Brasil520Sim
Argentina310Não
Chile211Não
México111Não
Colômbia100Não
Equador100Não
Porto Rico220Não

Treze organizações na região, sete delas já com credencial coletada. Nenhuma chegou a domain admin, mas isso é consolo curto: em 12 dos 440 casos o operador chegou lá, e em vários outros ele simplesmente não voltou para continuar. A GreyNoise registra que houve atrasos de dias entre o acesso inicial e a escalada, e o motivo do atraso não foi defesa. Foi falta de ação do atacante.

Por que um servidor de impressão

O PaperCut NG e MF são aplicações Java autohospedadas para contabilizar e cobrar impressão, cópia e digitalização. Em Windows, rodam por padrão com privilégio SYSTEM. Quase sempre estão no domínio e integrados ao Active Directory, porque precisam saber quem imprimiu o quê.

Leia essa frase de novo trocando “impressão” por qualquer outro sistema administrativo da sua empresa. Ponto de ponto eletrônico, controle de acesso físico, gestão de licença, help desk, sistema de reserva de sala. Todos com SYSTEM, todos no domínio, nenhum na lista de ativos críticos.

A GreyNoise observou três caminhos para o domínio, todos velhos conhecidos:

Em todos eles, o fecho foi DCSync e dump completo do NTDS.DIT. As ferramentas são as de sempre: Mimikatz, Impacket, Certipy, BloodHound, Rubeus, NetExec. Nada de arsenal exótico. A IA não inventou técnica nova; ela removeu o gargalo humano entre uma técnica conhecida e a sua aplicação em escala.

O detalhe que quase ninguém citou

Em pelo menos um caso, o ataque falhou porque um WAF da Cloudflare estava na frente do servidor.

É uma linha discreta no meio do relatório e é provavelmente a informação mais útil dele. A campanha inteira, com toda a velocidade e toda a orquestração, esbarrou em higiene básica de exposição. Não foi um produto de detecção comportamental com IA que parou o ataque de IA. Foi um filtro na borda.

O mesmo vale pelo lado negativo. O caminho B só existiu porque havia domínio sem patch de 2021. O caminho C só existiu porque alguém instalou um servidor de impressão em um controlador de domínio, ou deu a ele uma conta de serviço com privilégio máximo. São decisões que foram tomadas anos atrás por motivos práticos e que ninguém revisitou.

Leitura LATAMSEC

Três consequências práticas, na ordem em que dá para agir.

A janela de resposta encolheu antes do seu processo. Sete minutos do acesso inicial ao domain admin em uma escola americana. Nenhum processo de resposta a incidente que depende de abrir chamado, acionar plantonista e convocar ponte responde nisso. Isso não significa comprar ferramenta nova; significa decidir com antecedência o que pode ser contido automaticamente sem aprovação humana, e aceitar o falso positivo que vem junto. A conversa sobre esse limite é de diretoria, não de SOC.

O inventário de ativos exposto é o controle, não o relatório. A pergunta a fazer nesta semana não é “temos PaperCut?”. É “quais aplicações administrativas rodam com privilégio elevado, estão no domínio e respondem na internet?”. Se a resposta levar mais de um dia para chegar, essa demora já é o achado.

Pare de tratar geografia como controle. Muita organização na região trabalha, de forma tácita, com a ideia de que está fora da rota principal. Que o ataque grande acontece nos Estados Unidos e na Europa e chega aqui meses depois, diluído. Essa campanha atingiu 48 países em poucos dias porque escolher alvo deixou de custar tempo. E quando o próprio atacante mandou poupar o Brasil, a instrução não foi cumprida.

Uma última observação, para quem acompanha o debate sobre salvaguardas de modelo. O operador usou um harness da OpenAI, o Codex, combinado com um modelo DeepSeek. A GreyNoise anota, de forma seca, que apesar das barreiras dos modelos de fronteira ocidentais, adversários estão usando uma variedade de modelos para conduzir intrusões. A discussão sobre alinhamento de um fornecedor específico continua válida e continua insuficiente, porque a montagem é modular e o elo mais permissivo define o resultado.

O que observar nos próximos dias

MonetizaçãoO objetivo ainda não apareceu

A GreyNoise não conseguiu determinar a finalidade. Pode ser desenvolvimento de acesso para revenda. Explorações anteriores do PaperCut terminaram em extorsão.

NotificaçãoVítimas avisadas fora do canal oficial

A empresa fez a notificação em parceria com prestadores de resposta a incidente, ininterruptamente. Organizações sem contrato de resposta podem não ter sido alcançadas.

PersistênciaTúnel Ligolo deixado para trás

Agente Ligolo-ng gravado como legit-svc.exe em C:\ProgramData\LegitSvc\. Quem corrigiu a falha sem caçar persistência pode continuar com visita dentro de casa.

InfraestruturaO IP já era conhecido desde julho

O endereço 45.142.193.132 vinha sendo rastreado desde o início de julho por ataques a produtos Palo Alto, Ubiquiti, Citrix, SonicWall e Proxmox VE.

Fontes e aprofundamento

  1. GreyNoise · Agents Gone Wild: An AI-Orchestrated Global Campaign Against PaperCut NG/MF (09/09/2026), com a linha do tempo, a vitimologia por país e os indicadores de comprometimento.
  2. The Register · Hundreds of AI agents helped PaperCut attacker hit 395+ orgs, and some went off script (10/09/2026).
  3. GreyNoise Intelligence · repositório de dados suplementares, onde novos indicadores da campanha continuam sendo publicados.
  4. Sophos · noPac: a tale of two vulnerabilities that could end in ransomware, referência técnica do caminho B usado na campanha.
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