Destaque do dia · 31 de julho de 2026

A indústria do golpe abriu filial na América do Sul

A UNODC estima entre US$ 88,3 bilhões e US$ 114,1 bilhões em perdas com fraude organizada no Leste e no Sudeste Asiático em 2025. O trecho que interessa ao Brasil está no meio do relatório: os sindicatos abriram centros físicos na América do Sul e começaram a recrutar quem fala português e espanhol.

Crime organizado transnacional US$ 88,3 bi a US$ 114,1 bi em 2025 Vítimas de 80 países Referência: 30/07/2026
Sala executiva com painéis de risco cibernético e indicadores financeiros de fraude
Fraude deixou de ser incidente e virou setor econômico, com cadeia de fornecedores, folha de pagamento e planejamento de expansão.

O que aconteceu: o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime publicou em 21 de julho o relatório An Interconnected Criminal Ecosystem: Transnational Organized Crime Threat Assessment for South-East Asia 2026. O documento estima perdas de US$ 88,3 bilhões a US$ 114,1 bilhões em 2025 no Leste Asiático, Sudeste Asiático, Austrália e Nova Zelândia, contra US$ 18 bilhões a US$ 37 bilhões em 2023. E registra que os grupos passaram a operar centros de fraude na América do Sul, com recrutamento de falantes de português e espanhol e conexão com organizações de tráfico latino-americanas.

Há uma diferença entre um número grande e um número que muda o problema. Multiplicar as perdas por três em dois anos é um número grande. Abrir operação física na América do Sul é um número que muda o problema, porque tira a fraude do campo de risco importado e coloca no campo de risco doméstico.

O relatório descreve algo que a indústria de segurança demorou a nomear. Não se trata de quadrilhas que cresceram. Trata-se de uma economia com divisão de trabalho, fornecedores especializados, mercado de insumos e planejamento de expansão geográfica.

Quatro tecnologias fizeram a industrialização caber num contêiner

A UNODC aponta quatro habilitadores, e nenhum deles é ilegal.

Criptomoeda, com destaque para a blockchain TRON e o stablecoin Tether, criou um sistema financeiro paralelo barato e rápido o suficiente para liquidar volume industrial. Mensageria criptografada, sobretudo o Telegram, deu comunicação operacional. IA generativa reduziu o custo de produzir a fraude e a barreira técnica de quem executa. E internet por satélite desconectou os complexos da infraestrutura de telecomunicação local, o que retira a alavanca mais simples que uma autoridade tinha para investigar.

São quatro tecnologias de duplo uso. O ponto do relatório não é que elas sejam ruins. É que juntas formam uma pilha, e que atacar uma de cada vez não produz resultado. A analista da Chainalysis Xue Yin Peh coloca a conclusão de forma direta: a resposta exige ação coordenada sobre todas ao mesmo tempo.

O dinheiro tem endereço, e ele é público

Os chamados serviços de garantia no Telegram, mercados onde vendedores anunciam lavagem de dinheiro, dado roubado e infraestrutura, movimentaram mais de US$ 53 bilhões em fluxo on-chain em 2025, contra US$ 6 bilhões em 2022, segundo a Chainalysis. Huione Guarantee e Xinbi Guarantee são os nomes citados.

Nesses mesmos mercados hoje se anuncia ferramenta de IA abertamente: troca de rosto em vídeo, geração de voz e serviços de engenharia social assistida. Os fluxos de criptomoeda ligados a entidades de golpe mais que dobraram em 2025, para US$ 22 bilhões, contra US$ 9,8 bilhões no ano anterior. E esse recorte enxerga apenas o que passa por blockchain. O que corre por canal bancário tradicional não aparece.

Repressão deslocou, não reduziu

Quando as autoridades avançaram sobre os complexos de KK Park e Shwe Kokko, em Mianmar, a operação não parou. Ela se reconstituiu em Poipet, Sihanoukville e Bavet, como novos nós de uma rede desenhada exatamente para sobreviver a esse tipo de pressão.

O relatório trata corrupção e investimento estrangeiro direto de origem criminosa como variável estrutural, não como efeito colateral. Nas palavras da agência, é a corrupção que determina onde as redes se instalam, quanto crescem e quanto tempo sobrevivem à repressão. Traduzindo para decisão de risco: a escolha do território segue a fragilidade institucional, e essa é uma variável que a América Latina precisa olhar no espelho.

O que a chegada à América do Sul significa na prática

MudançaEfeito para empresas no Brasil
Recrutamento de falantes de portuguêsAcaba a proteção residual do idioma. Fraude por voz e por mensagem passa a soar nativa, com gíria e referência local corretas.
Centros físicos na regiãoReduz fuso e latência. A operação de engenharia social passa a rodar no mesmo horário comercial do alvo.
Conexão com organizações de tráfico locaisAdiciona capacidade de coerção física, recrutamento forçado e lavagem por estruturas já existentes no país.
IA generativa no kit padrãoDeepfake de voz em aprovação de pagamento deixa de ser cenário de palestra e vira vetor com fornecedor e preço.
Tráfico de pessoas de 80 paísesTraz risco de cadeia de fornecedores e de conformidade para empresas com operação de recrutamento na região.

Leitura LATAMSEC

Esse relatório não é sobre o Sudeste Asiático. É sobre um modelo de negócio que provou funcionar e agora está sendo replicado onde houver margem. A pergunta para o conselho brasileiro não é se a empresa está na mira. É se os controles de aprovação ainda dependem de reconhecer uma voz, um sotaque ou um nome no telefone.

Três verificações concretas valem mais que um plano. Primeira: existe procedimento de contra-chamada por canal independente para pagamento acima de um limite, e ele é obrigatório, não recomendado? Segunda: alguém já testou esse procedimento com um áudio sintetizado do próprio executivo? Terceira: o time de atendimento ao cliente sabe o que fazer quando a pessoa do outro lado tem todos os dados corretos e mesmo assim algo parece errado?

O que mais incomoda nesse relatório não é a escala. É a naturalidade da linguagem de expansão. Um mercado saturado, uma busca por novos territórios, uma adaptação de produto ao idioma local. É vocabulário de plano de negócios. Do outro lado dessa planilha há gente traficada de oitenta países e economias inteiras perdendo fração relevante do PIB.

Outros sinais do dia

EscalaDe US$ 18 bi a US$ 114 bi

As perdas estimadas quase triplicaram entre 2023 e 2025 na região coberta pelo relatório.

InfraestruturaUS$ 53 bi em mercados de garantia

O fluxo on-chain nos serviços de garantia do Telegram saltou de US$ 6 bi em 2022, segundo a Chainalysis.

DifusãoO modelo saiu da Ásia

Além da América Latina e do Caribe, o relatório cita Oriente Médio, África, Europa Oriental, Sul da Ásia e Pacífico.

GovernançaCorrupção como variável de projeto

A UNODC trata o investimento estrangeiro direto de origem criminosa como habilitador estrutural, não como desvio.

Fontes e aprofundamento

  1. UNODC · New UNODC report reveals scale of South-East Asia's ever more interconnected criminal economy (comunicado oficial, 21/07/2026).
  2. UNODC · An Interconnected Criminal Ecosystem — Transnational Organized Crime Threat Assessment for South-East Asia 2026 (relatório integral, PDF).
  3. Dark Reading · SE Asian Cybercriminal Syndicates Become a Global Power (análise e entrevistas, 30/07/2026).
  4. OCCRP · UN: Transnational Cybercrime in Southeast Asia Hits Record High.
  5. JURIST · UN report exposes explosive growth of Southeast Asian crime syndicates (leitura jurídica do relatório).
Solicitar diagnóstico de exposição Ver histórico dos Destaques